O Baloiço de Helena



Nunca percebi bem o porquê, talvez com medo de que eu e Helena crescessemos depressa demais ou por outra coisa qualquer, a mãe dela achou por bem mudá-la de escola e proibiu-nos de encontrar.
Todos os dias, eu lhe deixava um bilhete, naquele vaso debaixo da janela da cozinha, que ela lia religiosamente todos os dias, antes da Escola. A resposta, deixava no mesmo sítio, onde eu pegava ao fim do dia.

Posso dizer que era o momento mais excitante de todo o dia. O dia inteiro passava... e eu pensando o que lhe iria escrever no próximo bilhete...

Costumávamos ir ao parque andar no nosso baloiço, escondidos dos nossos pais, claro, à 6ª feira a seguir à escola. Dávamos a mão, ríamos dos outros miúdos... e segredavamos. Mas nunca nossos lábios se juntaram.

Depois, insatisfeito com o pouco tempo que passavamos juntos, comecei a ir espreitá-la à sua nova escola na hora de almoço. Ela brincava à Macaca com outras raparigas. Vestido pelos joelhos, tranças compridas e um rosto rosado, perfeito. De tão distraída que estava, não me conseguia vislumbrar no meio dos arbustos que ladeavam o páteo do recreio. Seu perfume inundava todo o ar, embaciando meus óculos fundo de garrafa. Ai os meus óculos... cruz que carreguei com sofrimento, que me tornava alvo da chacota e da piada infantil e terrivelmente cruel das outras crianças...

Dia após dia, lá ia eu, fizesse chuva ou sol, espreitar a minha Helena. Os bilhetes... bem, os bilhetes ela já não os lia todos os dias. Só quando se lembrava. As respostas... bem, as respostas já não eram tão imediatas. Passou de um ritual diário a um mero passatempo facultativo, daquelas tardes em que chovia e não podia brincar na casa das amigas. O Baloiço... bem, o baloiço ainda oscila ao vento... mas não mais nos sentámos nele.

O tempo passou e com ele aumentaram os meus actos voyeuristas... Acompanhava-a todos dias da Escola até casa, obviamente distante o suficiente para que não me notasse. Vi-a no parque brincando com as suas amigas, e ria-me com as suas diabruras. Tempo mais passou e não a deixei. Sempre "juntos". Sempre "perto" um do outro. Aquela árvore em frente à janela do quarto dela era o esconderijo ideal para as minhas observações nocturnas. De tanto a ver vestir e despir, conhecia de cor todos os milimetros do seu corpo... certa noite um suspiro barulhento quase denunciava a minha presença... mas escapei... continuei sempre com a sensação de que Helena sabia de tudo, e que mesmo assim não se importava. Não se sentia vigiada, sentia-se protegida, assim como ela me protegeu naquele dia na escola dos risos dos nosso colegas...

Com os 18 anos, chegou o final do Secundário. Já mulher feita e entrando na vida adulta, estive a seu "lado" no baile de finalistas. Partilhei a felicidade dela quando aquele rapaz de quem gostava tanto, a convidou para dançar. Dançou contigo a valsa que devia ter sido nossa. Vi nos olhos de Helena a sua felicidade ao dar o seu 1º beijo. Não foram meus lábios que foram tocados, mas senti a respiração e seu sabor como se tivesse sido eu. Tal como nos sonhos que tinha desde há alguns anos a esta parte e que estranhamente me provocavam suores frios...

Quando abriu os olhos, Helena viu-me lá ao fundo... no canto do salão. Por trás destes óculos infernais que ela não esqueceu. A minha cara, embora diferente da cara que ela conheceu, não dava para esquecer. Mesmo duvidando, o meu sorriso me denunciou. Senti no olhar dela que já não precisava da minha "protecção". Este Anjo da Guarda ficou livre naquele beijo, livre para seguir seu caminho.

Assim o fiz.

Na minha memória o nosso baloiço ainda oscila. Ainda damos as mãos... Ainda nos rimos... Ainda segredamos... Ainda te sinto a meu lado...

Serás sempre a minha pequena Helena. A minha pequena e doce Helena...

2 comentários:

Psipunisher disse...

De longe o teu melhor texto publicado, merecia ser publicado numa colectânea de autores....

Jeremias25 disse...

lol escrevi este texto para um concurso online de um blog que costumava visitar... os textos que enviaram eram simplesmente fora de serie...